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29 de jun de 2010

Existe vida depois da prisão?

Existe vida depois da prisão?





Lis Horta Moriconi
O professor de Criminologia, Lei e Justiça, da Universidade de Illinois, em Chicago, John Hagedorn, tem estudado as gangues por mais de 20 anos. Hagedorn é autor de "Um mundo de gangues", coeditor de um livro pioneiro sobre o papel das mulheres e crianças, "Gangues femininas nos EUA" e também mantém um site, o Gangresearch.com.
Atualmente, estuda a influência das gangues nas comunidades afetadas pela recessão econômica. “As gangues controlam as prisões, e agora elas têm força nas comunidades também”, diz Hagedorn. Ele falou com exclusividade ao Comunidade Segura sobre como a nova tendência a reduzir o tamanho das prisões para criminosos adultos, que tornou-se conhecida na Califórnia, pode afetar os integrantes das gangues.
“Quando e para quê os soltaremos?”, indaga Hagedorn, que acredita que, mesmo quando os membros de gangues são soltos prematuramente, escapando da influência das gangues na cadeia, o ex-presidiários terão poucas oportunidades de achar um emprego formal, em um mercado já escasso para aqueles que não têm histórico criminal. Hagedorn aponta dificuldades extras encaradas por criminosos adultos que são soltos após longas penas, em idade avançada e, provavelmente, com uso significativo de drogas. “O uso de drogas nas prisões continua a todo vapor”, afirma.
Segundo Hagedorn, o retorno à vida comum após a saída da prisão pode estar ligado justamente às organizações das quais as autoridades pretendiam que os criminosos saíssem. "Quando voltam a comunidades economicamente fracas, egressos do sistema carcerário e ex-integrantes de gangues fatalmente voltarão às suas antigas redes e gangues, que ficam cada vez mais fortes", relata. As gangues hoje, para Hagedorn, estão se tornando mais poderosas nas comunidades, se apoderando de gangues menores por meio do controle do tráfico de drogas. “Na minha opinião, como indivíduo, é melhor não voltar para a comunidade da onde você veio”.
“As gangues, porém, perderam o que eles costumavam dar às suas comunidades 40 anos atrás: organização baseada nas origens e um código de ética alternativo”, diz Hagedorn, para quem a perspectiva é das piores. “Gangues hoje se resumem a drogas e violência, e os jovens não fazem idéia da história das gangues as quais pertencem”.

Como as novas propostas de redução do tamanho das prisões afeta as gangues e seus membros?
Na Califórnia, as gangues controlaram o sistema prisional por décadas e é improvável que isso mude com estas propostas que vem sido apresentadas até agora.
Houve alguma mudança, para o lado ruim: gangues como a Máfia Mexicana, presentes nos presídios, se espalharam pelas comunidades e isto é uma mudança na forma como elas exercem sua influência. É o oposto do que costumava acontecer, quando as gangues das comunidades penetravam as prisões.
Elas não só dominam as prisões como também são forças poderosas nas ruas e no mercado do tráfico de drogas. Gangues de rua estão sendo engolidas ou fazendo acordos com várias gangues oriundas de presídios... logo, as gangues ainda representam uma força muito poderosa dentro do sistema prisional, e esse tipo de mudança que vem sendo implantada, ao meu ver, não vai afetar de fato as gangues.

As medidas de restrição à liberdade dos detentos dentro das cadeias foram reforçadas ao longo dos últimos anos. Com menos liberdade atrás das grades, as gangues não foram controladas?
Os agentes das prisões dirão que sim. Mas, ao perguntar para os detentos, tem-se uma visão diferente. Vou contar uma história que aconteceu em Chicago. Eu estava andando numa prisão que já atravessava esta política de restrição de liberdade interna há nove meses. O agente carcerário me dizia que, naquele momento, eram eles que controlavam a prisão. E então os detentos me disseram: “pergunte a este agente o seguinte: se eles controlam a prisão, por que é que quando um novo detento chega, ele tem que comprar sua cela das gangues?”.
As gangues controlam as celas na Califórnia, se você não faz parte de uma delas e tem que escolher uma cela para ficar, isso custa dinheiro. Não vejo como esta política de restringir a liberdade dos presos e outras medidas de segurança podem quebrar a influência que as gangues exercem nas prisões.

As novas medidas que propõem uma redução do número de pessoas nas prisões podem ajudar a reduzir o crime?
Quando os detentos atingidos pelas novas medidas não são membros de gangues pesadas, isto funciona: quanto menos pessoas na prisão, melhor. Temos muitos presos atualmente, toda medida que venha reduzir esses números, que soltem as pessoas antes, por exemplo, serão um benefício.
Por outro lado, quando se solta alguém antes do fim da pena, é preciso saber para que está se soltando aquela pessoa. Por exemplo, em um cenário de alta taxa de desemprego, como na comunidade de White Fence, em Los Angeles, que tinha uma gangue própria e independente, mas agora é controlada pela Máfia Mexicana.
Se você quer trabalhar, tem que pedir autorização à gangue, porque a área oferece poucos empregos e esta máfia controla o tráfico de drogas. Nas atuais condições do país, é difícil prever em que regiões as gangues serão atingidas quando os detentos forem soltos.

Ou seja, o ato de soltar estes presos tem que estar associado a programas de estímulo ao emprego?
É claro que os empregos não estão dando sopa por aí. Este é um dos temas da minha pesquisa: esta não é uma política razoável, mas individualmente está claro que se você não volta para sua comunidade, você tende a ser mais bem sucedido.
Basta pensar um pouco: se alguém faz parte de uma gangue e é preso, quando volta para sua comunidade e não encontra emprego, as redes das quais você fez parte estarão ali. Agora, caso a pessoa opte em ir para outro lugar, terá mais dificuldade em quebrar essa barreira inicial e provavelmente procurará outra coisa. Ficou muito claro nos primeiros estudos que fiz que os membros de gangues egressos do sistema prisional que não voltavam às suas comunidades de origem tinham menos chance de serem preso. Não é algo que eu recomende como política, mas pensando individualmente, eu consideraria.
Entrar novamente na comunidade não estaria baseado, portanto, na identidade, na origem, seria uma nova vida...
O egresso teria um novo tipo de identidade, mais definido, talvez, pelo trabalho, pela igreja ou religião. Mais do que voltar para um lugar onde se tem múltiplas identidades, mas uma delas é a gangue. Há uma rede de pessoas que as gangues está sempre contratando. Eles podem não pagar bem, mas sempre há algo a se fazer, eles irão encaixar o egresso.

Qual é o tema da sua atual pesquisa?
Um pouco dela é detectar o que acontece às pessoas após saírem da cadeia. Em Chicago, por exemplo, as redes são muito mais fortes do que em Milwakee. Se uma pessoa deixa a prisão e volta para Landale, pode encontrar coisas novas, romper com os ex-colegas, mas eles ainda estarão ali.
Se for integrante de uma gangue e volta para as ruas, encontrará as gangues saindo, lidando com pessoas, usando drogas. Se a pessoa não tem mais nada a fazer, eventualmente eles será encaixada no esquema, porque são amigos. Se for para outro lugar, porém, precisará buscar alternativas pois as respostas não estarão ali.

Após o cumprimento de longas penas, deixar a prisão e retornar à vida comum significa voltar para suas comunidades de origem. O que muda quando se é mais velho?
Sim, e existe ainda a questão do uso de drogas. As drogas estão muito presentes dentro das prisões e o preso não precisa se livrar delas enquanto está dentro do sistema carcerário. Mas quando eles são soltos, não há empregos e eles já têm alguma idade, isso é um fator de depressão. Existe um grupo de pessoas, entre 40 e 70 anos, na parte oeste de Chicago, controlada pelos Vice Lords. É deprimente: ali existiam negócios brilhantes, lojas vendendo roupas africanas...
Agora, é uma região economicamente arrasada e o que se vê são 30 ou 40 rapazes numa esquina, a maioria deles ex-membros dos Vice Lords, todos marcados pela prisão. Não há nada para eles, eles já desistiram da vida. A única coisa para a qual eles vivem são as drogas. Este é um dos resultados de penas tão longas.

O tratamento para as drogas é oferecido aos ex-detentos quando retornam à vida civil?
Existem alguns programas que oferecem este tipo de tratamento, mas não são muitos. Para mim, parece que a resposta está nas ruas, não nas instituições. Quando se olha para trás, percebe-se que houve uma época em que as gangues faziam parte de movimentos sociais que tinham alguma força, que ofereciam empregos, não só em seus contratos com o Estado, mas fornecendo também uma moral alternativa, um código de ética. Existia esperança no sentido de que as pessoas podiam realmente confiar umas nas outras, podiam lidar umas com as outras de maneira direta. Hoje essa esperança não existe mais.
O cerne da questão é, na minha opinião, é criar um senso de vida em comunidade (esse é o motivo de os programas de reinserção social tenderem a ser burocráticos e não efetivos). É quando existe uma demanda nas ruas por tratamento e as pessoas assumirão a responsabilidade por elas mesmas. Mas não existem muitos sinais nesse sentido
O que o senhor quer dizer com introduzir um senso de vida em comunidade?
Me refiro fundamentalmente a movimentos sociais e se eles vão incluir as ruas. Se isso vai significar a criação de empregos e a organização contra a brutalidade da polícia e contra a especulação imobiliária que encarece bairros, causando êxodo dos moradores. Mas o fato é que isso não é algo que pode ser transmitido de cima para baixo, isso realmente tem que vir das ruas.

A atual administração do país ajuda?
A situação política também não é boa, todos os tipos de manifestação pública que demandam apoio das comunidades são fortemente repudiados pelas comunidades negras, que não querem contrariar a administração Obama. Os latino-americanos têm menos problemas neste sentido, eles têm se manifestado contra as leis de imigração e têm até se associado a policiais brancos.
http://www.comunidadesegura.org/

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